Direito Civil

A POSSE NO CÓDIGO CIVIL

16/12/2025, Por: Wallace Matheus

A posse constitui um dos institutos fundamentais do Direito Civil brasileiro, representando uma situação de fato com proteção jurídica. Diferentemente da propriedade, que é um direito real de pleno direito, a posse configura-se pela exteriorização do domínio, pelo exercício de poderes decorrentes da propriedade, independentemente de ser o possuidor ou proprietário do bem.

O Código Civil de 2002, nos artigos 1.196 a 1.224, estabelece o regime jurídico da posse, abrangendo sua conceituação, classificação, aquisição, efeitos e perda. Este conjunto normativo representa uma evolução em relação ao código anterior, consolidando entendimentos jurisprudenciais e doutrinários.

Conceito de Posse e Teoria Adotada

O artigo 1.196 define: “Considera-se possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de alguns dos poderes inerentes à propriedade.”

Esta definição revela que o legislador brasileiro introduziu predominantemente a Teoria Objetiva de Ihering , que conceitua a posse como a exteriorização da propriedade, o corpus (elemento objetivo), dispensando o animus domini (vontade de ser dono) exigido pela Teoria Subjetiva de Savigny.

Para concursos, é essencial memorizar que o Código Civil elaborou a teoria de Ihering (objetiva), mas com temperamentos da teoria de Savigny, especialmente ao distinguir possuidores de detentores. Esta é uma questão recorrente em provas.

Poderes Inerentes à Propriedade

A posse pode manifestar-se através do exercício de quaisquer dos poderes do proprietário:

  • Usar (jus utendi)
  • Gozar/Frutas (jus freendi)
  • Dispor (jus abutendi)
  • Reivindicar (rei vindicatio)

Não é necessário o exercício cumulativo de todos esses poderes. Basta a exteriorização de um deles para caracterizar um grupo.

Classe da Posse

Posse Direta e Posse Indireta

O artigo 1.197 estabelece: “A posse direta, de pessoa que tem a coisa em seu poder, temporariamente, em virtude de direito pessoal, ou real, não anula a indireta, de quem aquela foi havida, podendo o possuidor direto defender a sua posse contra o indireto.”

Posse Direta: exercida por quem tem contato físico imediato com a coisa (locatário, comodatário, usufrutuário).

Posse Indireta: mantida por quem cedeu temporariamente o uso da coisa a outrem (locador, comodante, nu-proprietário).

Ambos possuem coexistem harmonicamente e são protegidos juridicamente. O possuidor direto pode defender sua posse até mesmo contra o indireto, evidenciando a autonomia de cada tipo possessório.

Exemplo Prático: João (proprietário) aluga seu apartamento para Maria. João tem uma posse indireta; Maria, pelotão direto. Se João tentar retomar o imóvel antes do fim do contrato, Maria poderá defender sua posse contra ele.

Posse e Detenção

O artigo 1.198 distingue o possuidor do mero detentor: “Considera-se detentor aquele que, achando-se em relação de dependência para com outro, conserva a posse em nome deste e em cumprimento de ordens ou instruções suas.”

Os detentores (ou fâmulo da posse) não possuem proteção possessória autônoma, pois atuam em nome de alheio e sob subordinação. Exemplos: caseiro, empregado doméstico, motorista particular.

O parágrafo único estabelece presunção de detenção para quem iniciou a relação nessa condição, cabendo a ele provar o contrário. Esta versão do ônus probatório é frequentemente cobrada em concursos.

Compor

O artigo 1.199 regula a situação de pluralidade de possuidores sobre coisa indivisa: “Se duas ou mais pessoas possuírem coisa indivisa, poderão cada uma exercer sobre ela atos possessórios, contanto que não excluam os outros compossuidores.”

Na composição , múltiplas pessoas exercem simultaneamente a posse sobre o mesmo bem, sem que haja divisão material. Exemplo: herdeiros que exercem posse conjunta sobre bens antes da partilha.

Cada compositor pode praticar atos possessórios, desde que respeite igual direito dos demais. A exclusão dos demais compossuidores caracteriza esbulho.

Posse Justa e Posse Injusta

O artigo 1.200 define: “É apenas a posse que não é violenta, clandestina ou precária”.

Posse Justa: aquela adquirida sem vícios.

Posse Injusta: apresenta um dos seguintes vícios:

  • Violenta: obtida mediante força física ou grave ameaça
  • Clandestina: adquirida às escondidas, ocultamente
  • Precária: quando há abuso de confiança (quem recebe a coisa por empréstimo e se recusa a devolvê-la)

A posse injusta pode tornar-se justa com a cessação do vício (artigo 1.208). Após cessar a violência ou clandestinidade, inicia-se a contagem de prazo para usucapião. Porém, a posse precária nunca convalesce, pois o vício não tem título próprio.

Súmula 237 do STF: “O usucapião pode ser arguido em defesa.”

Esta súmula evidencia que a posse justa e prolongada pode fundamentar o reconhecimento da usucapião mesmo quando arguida defensivamente.

Posse de Boa-fé e Posse de Má-fé

Os artigos 1.201 e 1.202 estabelecem esta classificação crucial:

“É de boa-fé a posse, se o possuidor ignora o vício, ou o obstáculo que impede a aquisição da coisa.” (Art. 1.201)

“A posse de boa-fé só perde este caráter no caso e desde o momento em que as declarações fazem presumir que o possuidor não ignora que possui indevidamente.” (Art. 1.202)

Posse de Boa-fé: o possuidor desconhece o vício que macula sua posse ou o obstáculo à aquisição. É um estado psicológico de ignorância justificável.

Posse de Má-fé: o possuidor conhece o vício ou obstáculo.

O parágrafo único do artigo 1.201 estabelece presunção relativa: “O possuidor com título justo tem por si a presunção de boa-fé, salvo prova em contrário, ou quando a lei expressamente não admite esta presunção.”

Justo título é o ato jurídico que, em tese, seria suficiente para transferir a propriedade, mas que contém vínculo impeditivo dessa transmissão (exemplo: escritura de compra e venda de imóvel alheio).

A boa-fé é subjetiva (estado psicológico), enquanto a posse justa/injusta é objetiva (verificação da presença de vínculos na aquisição). São classificações independentes, podendo haver:

  • Posse aristo e de boa-fé
  • Posse aristo e de má-fé
  • Posse injusta e de boa-fé
  • Posse injusta e de má-fé

O artigo 1.203 estabelece o princípio da continuidade do caráter possessório: “Salvo em contrário, entende-se manter a posse do mesmo caráter com que foi adquirido.”

Aquisição da Posse

Momento da Aquisição

O artigo 1.204 define: “Adquira-se a posse desde o momento em que se torne possível o exercício, em nome próprio, de quaisquer dos poderes protetores à propriedade.”

A posse é adquirida quando há possibilidade de exercício dos poderes sobre uma coisa, não sendo necessário o exercício efetivo e imediato. Basta a disponibilidade jurídica e material do bem.

Formas de Aquisição

Conforme o artigo 1.205, a posse pode ser adquirida:

I – Pela própria pessoa que pretende ou por seu representante

A. pode ser:

  • Direta: pelo próprio interessado
  • Por representação legal: por quem tem poder legal (pais, tutores, curadores)
  • Por representação convencional: por mandato com poderes específicos

II – Por terceiro sem mandato, dependendo da ratificação

Trata-se da gestão de negócios (negociação de gestão). A terceira idade sem poderes, mas se o interessado ratificar, a aquisição retroage ao momento em que o gestor atuou.

Transmissão da Posse

Sucessão Universal (artigos 1.206 e 1.207, primeira parte):

“A posse transmite-se aos herdeiros ou legados do possuidor com os mesmos caracteres.” (Art. 1.206)

“O sucessor universal continua de direito a posse do seu antecessor…” (Art. 1.207)

Os herdeiros recebem automaticamente a posse com todas as suas qualidades e vínculos. Não há opção: se o de cujus tinha posse de má-fé, assim será transmitido.

A expressão “legatários” no artigo 1.206 é técnico imprecisa, pois legados são sucessores singulares, não universais. Parte da doutrina interpretada como “herdeiros e legados”.

Sucessão Singular (artigo 1.207, segunda parte):

“…e ao sucessor singular é facultado unir sua posse ao antecessor, para os efeitos legais.”

O sucessor singular (comprador, donatário) pode escolher:

  • Somar sua posse à do antecessor ( accessio possessis )
  • Considerar apenas sua própria posse

A união de posses é facultativa e especialmente relevante para usucapião. Se o antecessor tinha posse de má-fé, geralmente não interessa ao sucessor fazer a acessão.

Atos que Não Geram Posse

O artigo 1.208 estabelece limitações importantes:

“Não induzem posse de atos de mera permissão ou tolerância assim como não autorizam a sua aquisição de atos violentos, ou clandestinos, senão depois de cessar a violência ou a clandestinidade.”

Atos de mera tolerância: favores, permissões precárias, gentilezas. Exemplo: permitir que vizinhos atravessem o terreno eventualmente.

Esta disposição visa evitar que a cortesia se volte contra quem a praticou. É questão recorrente em concursos, especialmente em relação a serviços.

Súmula 415 do STF: “Servidão de trânsito não titulado, mas tornado permanente, sobretudo pela natureza das obras realizadas, considera-se aparente, conferindo direito à proteção possessória.”

Presunção Legal

O artigo 1.209 estabelece presunção importante: “A posse do imóvel faz presumir, até prova bastante, a das coisas móveis que nele estiverem.”

Esta presunção é relativa ( juris tantum ) e facilita a proteção possessória, evitando que o possuidor preciso prove a posse individual de cada bem móvel.

Efeitos da Posse

A posse gera importantes consequências jurídicas, podendo ser divididas em efeitos quanto à proteção, aos frutos, às benfeitorias e à responsabilidade.

Proteção Possessória

O artigo 1.210 é fundamental:

“O proprietário tem direito a ser suspenso na posse em caso de turbação, restituído no esbulho, e garantido de violência iminente, se tiver apenas recebimento de ser molestado.”

Turbação: perturbação no exercício da posse, sem perda dela. Gera direito à ação de manutenção de posse .

Esbulho: perda total da posse. Conferir direito à ação de reintegração de posse .

Ameaça: justo recebimento de turbação ou esbulho. Enseja interdito proibitório .

OBSERVAÇÃO CRUCIAL – Autotutela (§1º):

“O proprietário turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força, contanto que o logotipo da fachada; os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção, ou restituição da posse.”

desforço imediato é exceção ao princípio de que ninguém pode fazer justiça com as próprias mãos. Requisitos:

  • Imediatidade temporal: deve ser exercida imediatamente após uma agressão
  • Proporcionalidade: apenas o necessário para repelir a agressão
  • Legitimidade: defesa de posse efetiva existente

Se o possuidor demora para reagir, perde o direito ao desforço imediato, devendo recorrer ao Judiciário.

Natureza da Proteção Possessória (§2º):

“Não obsta à manutenção ou reintegração na posse de alegação de propriedade, ou de outro direito sobre a coisa.”

Este dispositivo consagra o caráter duplicado das ações possessórias : discute-se apenas a posse, não a propriedade. O fato de ser proprietário não autoriza esbulho.

Súmula 487 do STF: “Será ferida a posse a quem, evidentemente, tiver o domínio, se com base neste para ela disputada.”

Esta súmula deve ser interpretada com cuidado: aplica-se quando ambas as partes fundamentam sua pretensão possessória na propriedade, não quando apenas o réu alega domínio defensivamente.

Conflito Entre Categoriadores

O artigo 1.211 resolve conflitos: “Quando mais de uma pessoa se disser possuidora, mantenha-se-á provisoriamente a que tiver a coisa, se não tiver manifesto que a obteve de alguma das outras por modo vicioso.”

Aplicar-se o princípio beati possidentes (melhor a posição de quem possui), favorecendo a situação de fato, salvo manifesto de vício.

Ação Contra Terceiros

O artigo 1.212 permite ação contra quem recebeu a coisa de má-fé: “O possuidor pode intentar a ação de esbulho, ou a de indenização, contra o terceiro, que recebeu a coisa esbulhada sabendo que o era.”

Exige-se má-fé do terceiro (conhecimento do esbulho). O terceiro de boa-fé não responde.

Exceção: Servidões Não Aparentes

O artigo 1.213 estabelece restrições importantes: “O disposto nos artigos antecedentes não se aplica aos serviços não aparentes, salvo quando os respectivos títulos provierem do possuidor do prédio serviente, ou daqueles de quem este o ocorreu.”

Serviços não aparentes não geram proteção possessória porque não se exteriorizam materialmente, não tendo corpo visível. Exemplo: serviço de não construir acima de certa altura.

A Súmula 415 do STF (já mencionada) reforça que apenas serviços aparentes têm proteção possessória.

Direito aos Frutos

A legislação diferencia radicalmente o tratamento entre possuidor de boa-fé e de má-fé:

Possuidor de Boa-fé (artigos 1.214 e 1.215)

“O possuidor de boa-fé tem direito, enquanto ela durar, aos frutos percebidos.” (Art. 1.214)

Frutos percebidos: o possuidor de boa-fé os adquire definitivamente, não devendo restituição.

Frutos pendentes: quando cessa a boa-fé, devem ser restituídos, deduzidas as despesas de produção e custódia.

Frutos coletados antecipadamente: devem ser restituídos.

OBSERVAÇÃO: O artigo 1.215 classifica os frutos quanto ao momento em que se consideram considerados:

“Os frutos naturais e industriais têm reputação colhidos e percebidos, logo que são separados; os civis reputação têm-se percebidos dia por dia.”

  • Frutos naturais: produtos orgânicos (colheita)
  • Frutos industriais: resultados da atividade humana (produção industrial)
  • Frutos civis: rendimentos periódicos (aluguéis, juros)

Possuidor de Má-fé (artigo 1.216)

“O proprietário de má-fé responde por todos os frutos colhidos e percebidos, bem como pelos que, por culpa sua, deixou de perceber, desde o momento em que se constituiu de má-fé; tem direito às despesas de produção e custeio.”

O proprietário de má-fé deve restituir:

  • Frutos efetivos percebidos
  • Frutos que deixaram de perceber por negligência

Tem direito apenas ao reembolso de despesas com produção e custo, não aos frutos.

Esta diferenciação entre boa-fé e má-fé é altamente cobrada em concursos, especialmente em questões de múltipla escolha.

Responsabilidade por Perda ou Deterioração

Possuidor de Boa-fé (artigo 1.217)

“O possuidor de boa-fé não responde pela perda ou apenas da coisa, a que não der causa.”

Responder apenas por danos causados ​​por sua culpa ou dolo. Se a coisa acontecer por caso fortuito ou por força maior, não há responsabilidade.

Possuidor de Má-fé (artigo 1.218)

“O possuidor de má-fé responde pela perda, ou marginalmente da coisa, ainda que acidentais, salvo se provar que de igual modo se deveria dar, estando ela na posse do reivindicante.”

Responsabilidade objetiva agravada : responder até por caso fortuito e força maior, salvo se demonstrar que o dano ocorreria de qualquer forma.

Direito às Benfeitorias

As benfeitorias classificam-se em:

  • Necessárias: indispensáveis ​​à conservação do bem (reparação no telhado)
  • Úteis: aumentar a utilidade do bem (construção de garagem)
  • Voluptuárias: mero deleite, embelezamento (piscina, jardim ornamental)

Possuidor de Boa-fé (artigo 1.219)

“O possuidor de boa-fé tem direito à indenização das benfeitorias necessárias e úteis, bem como, quanto às voluptuárias, se não lhe forem pagas, a levantá-las, quando o puder sem detrimento da coisa, e poderá exercer o direito de retenção pelo valor das benfeitorias necessárias e úteis.”

Direitos do possuidor de boa-fé:

  1. Indenização de benefícios, possibilidades e utilidades
  2. Levantamento de benfeitorias voluptuárias (se não pagas e se possível sem dano)
  3. Direito de retenção pelas possibilidades e utilidades (pode reter o bem até ser indenizado)

O direito de retenção é privilégio processual importante, permitindo que o possuidor permaneça no bem até receber a indenização. É uma questão frequente em provas.

Súmula 158 do STF: “Não é cabível, nas ações históricas, a retenção por benfeitorias permissão ou utilidades do possuidor de má-fé, ao qual se deve, entretanto, ressarcir as benfeitorias permissão.”

Possuidor de Má-fé (artigo 1.220)

“O proprietário de má-fé será ressarcidas somente as benfeitorias permitidas; não lhe dará o direito de retenção pela importância destas, nem o de levantar as voluptuárias.”

Direitos limitados:

  1. Indenização apenas das benfeitorias permitidas
  2. Sem direito de /
  3. Sem direito de levantar voluptuárias

A lógica é que o possuidor de má-fé sabia da irregularidade de sua posse e herdou o risco.

Compensação e Indenização (artigos 1.221 e 1.222)

“As benfeitorias compensam-se com os danos, e só obrigam ao ressarcimento se ao tempo da despejo ainda existirem.” (Art. 1.221)

“O reivindicante, obrigado a indenizar as benfeitorias ao possuidor de má-fé, tem o direito de optar entre o seu valor atual e o seu custo; ao possuidor de boa-fé indenizará pelo valor atual.” (Art. 1.222)

bi de indenização:

  • Possuidor de boa-fé: indenização pelo valor atual (geralmente mais benéfico)
  • Possuidor de má-fé: indenização pelo valor atual ou custo , à escolha do reivindicante (o menor)

A compensação entre benfeitorias e danos é automática, amortizando eventual crédito indenizatório.

Perda da Posse

Regra Geral (artigo 1.223)

“Perde-se a posse quando cessa, embora contra a vontade do possuidor, o poder sobre o bem, ao qual se refere o artigo 1.196.”

A posse se perde com a cessação do poder de fato sobre uma coisa, do exercício dos atributos da propriedade.

Causas de perda da posse:

  • Abandono (vontade do possuidor)
  • Perecimento da coisa
  • Inalienabilidade (coisa posta fora do comércio)
  • Posse de outrem (esbulho consolidado)
  • Destruição ou destruição total

Perda para Quem Não Presenciou o Esbulho (artigo 1.224)

“Só se considera perdida a posse para quem não presenciou o esbulho, quando, tendo notícia dele, se abstém de devolver a coisa, ou, tentando se recuperar, é violentamente repelido.”

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Quem não presencia o esbulho não perde imediatamente a posse. A perda se consolida quando:

  • Toma conhecimento e não reage, ou
  • Tenta recuperar e é repelido violentamente

Esta regra protege o possuidor ausente, concedendo-lhe oportunidade de reagir.

O prazo para as ações possessórias é de ano e dia contado do esbulho ou turbação (CPC, art. 558). Dentro desse prazo, a ação será de força nova , com possibilidade de liminar; após, será de força velha , com cognição mais aprofundada.

Jurisprudência Relevante dos Tribunais Superiores

Tribunal Superior de Justiça

Súmula 237 do STJ: “O direito à adjudicação compulsória não se condiciona ao registro do compromisso de compra e venda no cartório de imóveis.”

Embora não seja tratado diretamente de posse, relaciona-se com a proteção do compromissário comprador, que é possuidor direto.

Súmula 619 do STJ: “A ocupação indevida de bem público configura mera detenção, de natureza precária, insuscetível de retenção ou indenização por acessos e benfeitorias.”

PONTO DE ATENÇÃO CRUCIAL: Em bens públicos não há posse, apenas detenção, sendo impossível usucapião (CF, art. 183, §3º e 191, parágrafo único).

Supremo Tribunal Federal

Súmula 340 do STF: “Desde a vigência do Código Civil, os bens dominicais, como os demais bens públicos, não podem ser adquiridos por usucapião.”

Súmula 369 do STF: “O locatário não tem direito a retenção por benfeitorias, mas somente a indenização.”

Esta súmula excepcional a regra geral, pois o locatário, embora possuador direto, tem sua relação regida pela lei específica de locação.

Súmula 487 do STF (já mencionada): relevante para entender que, especificamente, quando ambas as partes fundamentam sua pretensão na propriedade, esta pode ser considerada.

Quadro Comparativo: Possuidor de Boa-fé x Má-fé

Aspectoguardor de Boa-fépresbítero de Má-fé
FrutossAdquira definitivamenteDeve restituir todos
Frutos pendentes (ao cessar boa-fé)Restitui, deduzidasRestitui integralmente
Frutos que de LIENão respondeResponde
Perda/deterioração sem culpaNão respondeResponder, salvo prova de que ocorreria de qualquer modo
BenfeitoriasIndenização +Indenização sem
BenefíciosIndenização +Sem direito
Benfeitorias voluptuáriasIndenização ou JúriSem direito
Valor da indenizaçãoValor atualValor atual ou custo (menor), à escolha do reivindicante
Direito deSim (necessárias e úteis)Não

Questões Típicas de Concursos e Pegadinhas Comuns

1. Confusão entre posse justa e boa fé

  • São conceitos diferentes e independentes
  • Posse justa/injusta: objetivos objetivos (vícios na aquisição)
  • Boa-fé/má-fé: critérios subjetivos (conhecimento do vício)

2. Detenção x Posse

  • Detentor não tem proteção possessória autônoma
  • Relação de dependência é elemento caracterizador

3. Direito de compartilhamento

  • Possuidor de boa-fé: tem direito (necessárias e úteis)
  • Possuidor de má-fé: não tem direito
  • Locatário: não tem direito (Súmula 369 STF)

4. Desforço imediatamente

  • Requisito temporal: imediatidade (“logotipo”)
  • Material requisito: proporcionalidade
  • Se a ocorrência for tardia, deverá recorrer ao Judiciário

5. Conversão de posse injusta em justa

  • Cessada a violência ou clandestinidade, um grupo convalesce
  • Posse precária jamais convalesce (vício no título)

6. Acessão de posses

  • Sucessor universal: automático e obrigatório
  • Sucessor singular: facultativa

7. Proteção possessória e propriedade

  • Discussão de propriedade não obsta ação possessória
  • Caráter duplo: discuta-se apenas a melhor posse

8. Bens públicos

  • Não há posse, apenas detenção
  • Impossibilidade de usucapião
  • Sem direito a retenção ou indenização

Considerações Finais para Concursos

O estudo da posse exige compreensão sistemática de suas classificações e efeitos. Os principais pontos para memorização são:

  1. Teoria teórica: Ihering (objetiva) com temperamentos
  2. Classificações: diferenciar claramente cada tipo
  3. Proteção possessória: natureza dupla, interditos, desforço imediato
  4. Efeitos diferenciados: boa-fé x má-fé (frutos, benfeitorias, responsabilidade)
  5. Jurisprudência: súmulas do STF e STJ são constantemente cobradas
  6. Bens públicos: impossibilidade de posse ad usucapionem

A distinção entre possuidor de boa-fé e má-fé é o aspecto mais cobrado em provas objetivas, especialmente no que diz respeito aos direitos sobre frutos e benfeitorias.

Para provas discursivas, é comum a solicitação de diferenciação entre posse e detenção, ou a análise de casos concretos relacionados à proteção possessória e seus requisitos.

Dica Final: Ao resolver questões, sempre se identifique primeiro se estivermos diante de posse ou detenção; depois, classifique a posse (justa/injusta, boa-fé/má-fé); por fim, aplique os efeitos correspondentes. Esta metodologia reduz consideravelmente a margem de erro.

Conforme o Art. 1313, inciso I, em que hipótese o proprietário é obrigado a tolerar a entrada do vizinho no seu prédio?

Alternativas:

Explicação da resposta:

Transcrição do art. 1313, inciso I: "O proprietário ou ocupante do imóvel é obrigado a tolerar que o vizinho entre no prédio, mediante prévio aviso, para: I – dele temporariamente usar, quando indispensável à reparação, construção, reconstrução ou limpeza de sua casa ou do muro divisório;" Explicação: A alternativa B reproduz literalmente o inciso I; as demais hipóteses não constam do texto legal.

O Art. 1286 estabelece hipóteses em que o proprietário é obrigado a tolerar a passagem de cabos e tubulações subterrâneas em seu imóvel. Assinale a proposição que reproduz corretamente o conteúdo do artigo.

Alternativas:

Explicação da resposta:

Transcrição do art. 1286: "Mediante recebimento de indenização que atenda, também, à desvalorização da área remanescente, o proprietário é obrigado a tolerar a passagem, através de seu imóvel, de cabos, tubulações e outros condutos subterrâneos de serviços de utilidade pública, em proveito de proprietários vizinhos, quando de outro modo for impossível ou excessivamente onerosa." Explicação: O texto exige indenização que cubra inclusive a desvalorização e condiciona a obrigação à impossibilidade ou onerosidade excessiva de alternativa, além de referir‑se a serviços de utilidade pública — exatamente o elemento da alternativa C.

Segundo o §2º do Art. 1285, se houver alienação parcial do prédio que faça com que uma das partes perca o acesso à via pública, qual é a obrigação do proprietário da outra parte?

Alternativas:

Explicação da resposta:

Transcrição do §2º do art. 1285: "Se ocorrer alienação parcial do prédio, de modo que uma das partes perca o acesso a via pública, nascente ou porto, o proprietário da outra deve tolerar a passagem." Explicação: O texto impõe a obrigação de tolerar a passagem; alternativas A, C e D divergem do comando legal.

Conforme o Art. 1285, quando o dono de um prédio que não tem acesso a via pública pode constranger o vizinho a lhe dar passagem?

Alternativas:

Explicação da resposta:

Transcrição do art. 1285: "O dono do prédio que não tiver acesso a via pública, nascente ou porto, pode, mediante pagamento de indenização cabal, constranger o vizinho a lhe dar passagem, cujo rumo será judicialmente fixado, se necessário." Explicação: O artigo condiciona expressamente o direito de constranger ao pagamento de "indenização cabal"; as demais alternativas não refletem o texto.

Segundo o Art. 1284, a quem pertencem os frutos caídos de árvore do terreno vizinho?

Alternativas:

Explicação da resposta:

Transcrição do art. 1284: "Os frutos caídos de árvore do terreno vizinho pertencem ao dono do solo onde caíram, se este for de propriedade particular." Explicação: O artigo determina que os frutos pertencem ao dono do solo receptor — condicionando‑se à propriedade particular do solo — portanto a alternativa B corresponde ao texto literal.

O Art. 1283 dispõe sobre raízes e ramos que ultrapassarem a estrema do prédio. Até onde o proprietário do terreno invadido pode cortá‑los?

Alternativas:

Explicação da resposta:

Transcrição do art. 1283: "As raízes e os ramos de árvore, que ultrapassarem a estrema do prédio, poderão ser cortados, até o plano vertical divisório, pelo proprietário do terreno invadido." Explicação: O texto determina literalmente o limite: "até o plano vertical divisório". Não há previsão de medida fixa em metros nem de obrigação de solicitar primeiro ao vizinho.

Conforme o Art. 1282, quando o tronco de uma árvore estiver exatamente na linha divisória entre prédios, qual é a presunção quanto à sua propriedade?

Alternativas:

Explicação da resposta:

Transcrição do art. 1282: "A árvore, cujo tronco estiver na linha divisória, presume-se pertencer em comum aos donos dos prédios confinantes." Explicação: O artigo estabelece a presunção de copropriedade entre os confinantes; as demais alternativas não reproduzem o texto.

O Art. 1278 estabelece que o direito do vizinho de fazer cessar certa interferência não prevalece quando ela for justificável por interesse público. Nessa hipótese, qual obrigação recai sobre o proprietário ou possuidor causador da interferência?

Alternativas:

Explicação da resposta:

Transcrição do art. 1278: "O direito a que se refere o artigo antecedente não prevalece quando as interferências forem justificadas por interesse público, caso em que o proprietário ou o possuidor, causador delas, pagará ao vizinho indenização cabal." Explicação: O texto prevê expressamente a obrigação de pagar "indenização cabal"; não há previsão de imunidade nem de demolição automática.

De acordo com o parágrafo único do Art. 1277, quais critérios devem ser considerados para proibir interferências de vizinhança?

Alternativas:

Explicação da resposta:

Transcrição do parágrafo único do art. 1277: "Proíbem-se as interferências considerando-se a natureza da utilização, a localização do prédio, atendidas as normas que distribuem as edificações em zonas, e os limites ordinários de tolerância dos moradores da vizinhança." Explicação: A alternativa B reproduz literalmente os critérios do texto legal; as outras alternativas incluem elementos não previstos no dispositivo.

Segundo o Art. 1277 do Código Civil (Capítulo V), o proprietário ou possuidor tem o direito de fazer cessar interferências prejudiciais provocadas pela utilização de propriedade vizinha com base em quais bens jurídicos protegidos?

Alternativas:

Explicação da resposta:

Transcrição do art. 1277: "O proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde dos que o habitam, provocadas pela utilização de propriedade vizinha." Explicação: O dispositivo cita expressamente "segurança, ao sossego e à saúde", sendo estes os bens jurídicos que fundamentam o direito de exigir cessação das interferências; as demais alternativas trazem termos não constantes do texto legal.