Concordância Verbal e Nominal
A concordância é o mecanismo pelo qual as palavras alteram suas terminações para se harmonizarem dentro da estrutura da frase. Trata-se de um dos pilares da sintaxe da língua portuguesa e um dos tópicos mais recorrentes em provas de concursos públicos. Dominar este conteúdo é fundamental para garantir uma pontuação consistente na disciplina de Língua Portuguesa.
Existem dois tipos de concordância: a verbal e a nominal. A concordância verbal refere-se ao ajuste do verbo em relação ao seu sujeito, enquanto a concordância nominal diz respeito ao ajuste entre substantivos e seus modificadores (adjetivos, artigos, pronomes, numerais).
Concordância Verbal
Regra Geral
A regra fundamental da concordância verbal estabelece que o verbo deve concordar com o sujeito em número (singular ou plural) e pessoa (1ª, 2ª ou 3ª).
Exemplos:
- O aluno estuda para o concurso. (sujeito singular → verbo singular)
- Os alunos estudam para o concurso. (sujeito plural → verbo plural)
- Eu trabalho muito. (1ª pessoa do singular)
- Nós trabalhamos muito. (1ª pessoa do plural)
Antes de determinar a concordância, identifique corretamente o sujeito da oração. Muitas questões de concurso exploram a dificuldade em localizar o núcleo do sujeito, especialmente quando há termos intercalados entre o sujeito e o verbo.
Sujeito Simples – Casos Especiais
Sujeito Coletivo
Quando o sujeito é representado por um substantivo coletivo no singular, o verbo permanece no singular.
Exemplos:
- A multidão gritava empolgada.
- O bando fugiu rapidamente.
- A turma compareceu à formatura.
Sujeito Coletivo + Especificador no Plural:
Quando o coletivo vem acompanhado de um especificador no plural, o verbo pode ficar no singular (concordando com o coletivo) ou no plural (concordando com o especificador).
Exemplos:
- A maioria dos candidatos compareceu / compareceram à prova.
- Um bando de pássaros voava / voavam sobre a cidade.
- Uma multidão de pessoas gritava / gritavam no estádio.
Embora a dupla possibilidade seja aceita, a concordância no singular é mais formal e conservadora, sendo preferível em textos oficiais.
Expressões Partitivas
Com expressões como “a maioria de”, “grande parte de”, “a maior parte de”, “o restante de”, seguidas de substantivo no plural, o verbo pode concordar com a expressão (singular) ou com o termo no plural.
Exemplos:
- A maioria dos eleitores votou / votaram conscientemente.
- Grande parte dos servidores aderiu / aderiram à greve.
- O restante das mercadorias foi / foram devolvido(as).
Expressões de Porcentagem
Quando o sujeito é uma expressão de porcentagem, a concordância segue estas regras:
a) Porcentagem sozinha: verbo concorda com o número da porcentagem.
- 1% comprovou a tese. (singular)
- 2% comprovaram a tese. (plural)
- 25% compareceram à reunião. (plural)
b) Porcentagem + especificador: verbo pode concordar com a porcentagem ou com o especificador.
- 1% dos candidatos desistiu / desistiram.
- 40% da população aprovou / aprovaram a medida.
c) Verbo anteposto à porcentagem: verbo concorda com o numeral.
- Faltaram 30% dos alunos.
⚠️ IMPORTANTE: Quando a porcentagem vem determinada por artigo ou pronome, o verbo concorda com esse determinante: “Os 30% restantes foram distribuídos.”
Expressão “Mais de Um”
A expressão “mais de um” normalmente exige verbo no singular.
Exemplos:
- Mais de um candidato compareceu à prova.
- Mais de um servidor recebeu aumento.
EXCEÇÕES:
a) Reciprocidade: quando há ideia de reciprocidade, o verbo vai para o plural.
- Mais de um deputado se agrediram na sessão.
- Mais de um jogador se cumprimentaram após o jogo.
b) Repetição da expressão: quando a expressão se repete, o verbo fica no plural.
- Mais de um aluno, mais de um professor faltaram à reunião.
Expressão “Um dos que”
Com a expressão “um dos que”, o verbo deve ficar no plural, concordando com o antecedente plural (aqueles/aquelas).
Exemplos:
- Ela é uma das candidatas que mais estudam. (das candidatas que estudam, ela é uma)
- Pedro foi um dos alunos que se destacaram na prova.
- Este é um dos casos que merecem atenção.
Esta é uma regra frequentemente cobrada em concursos. O erro comum é colocar o verbo no singular. Lembre-se: “um dos que” sempre exige plural no verbo.
Sujeito Representado por Pronome Relativo “QUE”
Quando o sujeito é o pronome relativo “que”, o verbo concorda com o antecedente desse pronome.
Exemplos:
- Sou eu que pago a conta. (antecedente: eu → 1ª pessoa)
- Somos nós que pagamos a conta. (antecedente: nós → 1ª pessoa plural)
- Foram eles que roubaram o carro. (antecedente: eles → 3ª pessoa plural)
- És tu que decides. (antecedente: tu → 2ª pessoa)
Sujeito Representado por Pronome Relativo “QUEM”
Com o pronome relativo “quem”, há dupla possibilidade de concordância:
a) Concordância com o antecedente (mais comum):
- Fui eu quem escrevi o relatório.
- Fomos nós quem fizemos o projeto.
b) Concordância na 3ª pessoa do singular:
- Fui eu quem escreveu o relatório.
- Fomos nós quem fez o projeto.
Ambas as formas são corretas, mas a concordância com o antecedente é mais natural e frequente na linguagem culta.
Verbos Impessoais
Verbos impessoais não possuem sujeito e permanecem sempre na 3ª pessoa do singular.
1. VERBO HAVER (Impessoal)
1.1. No sentido de EXISTIR
Quando significa “existir”, o verbo HAVER é impessoal (não tem sujeito) e fica sempre na 3ª pessoa do singular .
Exemplos corretos:
- Há muitos candidatos inscritos. (= Existem muitos candidatos)
- Havia problemas para resolver. (= Existem problemas)
- Houve queixas sobre a prova.
- � mudanças no edital.
❌ ERROS COMUNS:
Haviam muitos candidatos.→ ✅Havia muitos candidatos.Houveram reclamar.→ ✅ Houve reclamações.Haverão mudanças.→ ✅ mudanças .
1.2. Indicando TEMPO DECORRIDO
Quando indica tempo passado, o verbo HAVER é impessoal e permanece no singular.
Exemplos corretos:
- Há dois anos não o vejo.
- Houve meses que não estudou.
- Haverá dez anos que eu formei.
- Houve um ano de preparação intenso.
❌ ERROS COMUNS:
Fazem dois anos que não estuda.→ ✅ Faz dois anos que não estuda.Foram três meses que ele partiu.→ ✅ Houve três meses que ele partiu.
1.3. HAVER em LOCUÇÕES VERBAIS (Atenção Redobrada!)
REGRA DE OURO: Quando HAVER (impessoal) é o verbo principal de uma locução verbal, o verbo auxiliar também fica no singular .
Exemplos corretos:
- Deve haver soluções para o problema.
- Pode haver queixas dos alunos.
- Vai haver alterações no regulamento.
- Deveria haver mais vagas.
- Poderá haver questionamentos.
- Costuma haver imprevistos.
❌ PEGADINHA CLÁSSICA DE CONCURSO:
Devem haver soluções.→ ✅ Deve haver soluções.Podem haver queda.→ ✅Pode haver queixas.Vão haver mudanças.→ ✅ Vai haver mudanças.
Por quê? O verbo auxiliar “herda” a impessoalidade do verbo principal HAVER.
1.4. HAVER como verbo AUXILIAR (com sujeito)
Quando HAVER é auxiliar em tempos compostos (ter sorte), ele concorda normalmente com o sujeito.
Exemplos:
- Os alunos treinaram bastante. (sujeito: “os alunos”)
- Ela havia chegado cedo. (sujeito: “ela”)
🔍Valor crucial:
- Havia muitos alunos. (HAVER = existir, impessoal, sem sujeito)
- Os alunos aprenderam . (HAVER = auxiliar de “estudar”, tem sujeito)
1.5. Outros sentidos de HAVER (pessoal)
Quando significa “conseguir”, “obter”, “comportar-se”, HAVER tem sujeito e concorda normalmente.
Exemplos:
- Eles se houveram bem na prova. (= portaram-se bem)
- Os candidatos puderam por bem desistir. (= julguei conveniente)
2. VERBO EXISTIR (Pessoal – TEM sujeito!)
Diferentemente de HAVER, o verbo EXISTIR sempre tem sujeito e concorda normalmente com ele.
Exemplos corretos:
- Existe uma solução. (sujeito: “uma solução”)
- Existem várias soluções. (sujeito: “várias soluções”)
- Existe um problema grave. (sujeito: “um problema grave”)
- Existem muitos problemas. (sujeito: “muitos problemas”)
- Existem oportunidades para todos. (sujeito: “oportunidades”)
2.1. Comparação HAVER vs.
| HAVER (impessoal) | EXISTIR (pessoal) |
|---|---|
| Há vagas. | Existem vagas. |
| Havia candidatos. | Existem candidatos. |
| Houve problemas. | Existem problemas. |
| mudanças . | Existirão mudanças. |
2.2. EXISTIR em locuções verbais
Quando EXISTIR é o verbo principal, o auxiliar concorda com o sujeito (porque EXISTIR não é impessoal).
Exemplos corretos:
- Devem existir soluções. (sujeito: “soluções” – plural)
- Podem existir problemas. (sujeito: “problemas” – plural)
- Deve existir uma saída. (sujeito: “uma saída” – singular)
Comparar:
- ✅ Deve haver problemas. (HAVER impessoal → auxiliar no singular)
- ✅ Devem existir problemas. (EXISTIR pessoal → auxiliar concorda com “problemas”)
3. VERBO FAZER (Impessoal)
3.1. Indicando TEMPO DECORRIDO
Quando indica tempo transcorrido , o verbo FAZER é impessoal e fica no singular .
Exemplos corretos:
- Faz três anos que me formei.
- Faz dez anos que trabalho aqui.
- Fazia meses que não o via.
- Fará um ano que começou o curso.
❌ ERRO GRAVÍSSIMO:
Faz três anos que me formei.→ ✅ Faz três anos que me formei.Fazia meses que não estudava.→ ✅ Fazia meses que não estudava.
3.2. Indicando FENÔMENOS NATURAIS (clima/temperatura)
Quando se refere a características da natureza ou do clima , FAZER é impessoal (singular).
Exemplos corretos:
- Faz muito calor no fogo.
- Fez dias muito frios em julho.
- Fazia um tempo agradável.
3.3. FAZER em locuções verbais (tempo decorrido)
O verbo auxiliar também fica no singular quando FAZER é impessoal.
Exemplos corretos:
- Deve fazer três anos que ele partiu.
- Vai fazer um mês que estudo aqui.
- Pode fazer dez dias que não o vejo.
❌ PEGADINHA:
Devem fazer três anos.→ ✅ Deve fazer três anos.
3.4. FAZER com sentido de “realizar” (pessoal)
Quando significa “realizar”, “executar”, FAZER tem sujeito e concorda normalmente.
Exemplos:
- Eles fazem os exercícios diariamente. (sujeito: “eles”)
- Os alunos fizeram as provas. (sujeito: “os alunos”)
4. VERBOS DE FENÔMENOS NATURAIS (Impessoais)
4.1. Sentido DENOTATIVO (literal) → Impessoal
Quando usados no sentido literal (real/denotativo), são impessoais (singular).
Exemplos:
- Choveu muito ontem.
- Ventou forte durante a noite.
- Nevou na serra gaúcha.
- Trovejou a madrugada toda.
- Anoiteceu cedo no inverno.
- Amanheceu .
- Relampejou bastante.
4.2. Sentido CONOTATIVO (figurado) → Pessoal
Quando usado em sentido figurado (metafórico), deixa de ser impessoal e concorda com o sujeito.
Exemplos:
- Choveram críticas ao governo. (sujeito: “críticas” – sentido figurado)
- Amanheceram mais felizes naquele dia. (sujeito: “eles/as pessoas”)
- Choveram reclamações sobre o atendimento. (sujeito: “reclamações”)
🔍 Como identificar?
- Se não é chuva/vento/neve de verdade → sentido figurado → verbo concorda com o sujeito!
5. OUTROS VERBOS IMPESSOAIS IMPORTANTES
5.1. Verbo SER (indicando horas, datas, distância)
a) Horas
- É uma hora. (singular)
- São duas horas. (plural)
- Era meio-dia e meia. (singular, pois “meio-dia” é singular)
b) Dados
- É 1º de janeiro. (singular, concorda com “1º”)
- São 15 de novembro. (plural, concorda com “15”)
- Hoje são 20 de dezembro. (plural)
- Hoje é dia 1º. (singular)
c) Distância
- São dez quilômetros até a cidade. (concorda com “dez milhas”)
- É um quilômetro daqui até lá. (concorda com “um milhão”)
5.2. Verbo BASTAR / CHEGAR / PASSAR (impessoais em alguns contextos)
Quando indicar suficiência ou tempo , podem ser impessoais.
Exemplos:
- Basta de aplicação! (impessoal – suficiência)
- Chega de problemas! (impessoal – suficiência)
- Já passou de duas horas. (impessoal – tempo)
5.3. Expressões com HAVER/FAZER + IR + PARA
Construções complexas que geram dúvidas:
Exemplos corretos:
- Vai para dois anos que não o vejo. (impessoal – “vai” = faz)
- Vai fazer/haver dois anos que estudei. (ambos corretos)
6. PEGADINHAS CLÁSSICAS DE CONCURSO
Pegadinha 1: Locuções verbais com HAVER
❌Podem haver abordagens à regra.
✅Pode haver abordagens à regra.
Explicação: HAVER (existir) é impessoal → auxiliar no singular.
Pegadinha 2: FAZER diminuir tempo
❌Fazem cinco anos que eu formei.
✅ Faz cinco anos que me formei.
Explicação: FAZER (tempo decorrido) é impessoal → singular.
Pegadinha 3: HAVER vs. EXISTIR em locuções
- ✅ Deve haver problemas. (HAVER impessoal)
- ✅ Devem existir problemas. (EXISTIR pessoal, concorda com “problemas”)
Explicação: São verbos diferentes! HAVER é impessoal, EXISTIR tem sujeito.
Pegadinha 4: Fenômenos naturais (literal vs. figurado)
- ✅ Choveu muito. (literal – impessoal)
- ✅ Choveram reclamações. (figurado – concorda com “reclamações”)
Explicação: No sentido figurado, o verbo deixa de ser impessoal.
Pegadinha 5: HAVER auxiliar vs. HAVER principal
- ✅ Os alunos treinados . (HAVER auxiliar de “estudar” – tem sujeito)
- ✅ Havia muitos alunos. (HAVER = existir – impessoal, sem sujeito)
Explicação: Contextos completamente diferentes!
Pegadinha 6: TER no lugar de HAVER (informal)
Na linguagem informal/coloquial , é comum usar TER no lugar de HAVER:
- Coloquial: Tem muitas pessoas aqui. (uso oral)
- Formal: Há muitas pessoas aqui. (escrita formal/concursos)
⚠️ Em concursos e textos formais, prefira HAVER no sentido de existir!
7. RESUMO PRÁTICO – QUADRO COMPARATIVO
| Verbo | Sentido | Impessoal? | Concordância |
|---|---|---|---|
| HAVER | existir | ✅ SIM | sempre singular |
| HAVER | tempo decorrido | ✅ SIM | sempre singular |
| HAVER | auxiliar (tempos compostos) | ❌ NÃO | concorda com sujeito |
| EXISTIR | existir | ❌ NÃO | concorda com sujeito |
| FAZER | tempo decorrido | ✅ SIM | sempre singular |
| FAZER | natural | ✅ SIM | sempre singular |
| FAZER | realizar | ❌ NÃO | concorda com sujeito |
| Fenômenos naturais | sentido literal | ✅ SIM | sempre singular |
| Fenômenos naturais | sentido figurado | ❌ NÃO | concorda com sujeito |
Sujeito Composto
O sujeito composto é aquele que apresenta mais de um núcleo.
Regra Geral
Quando o sujeito composto está anteposto ao verbo, este vai para o plural.
Exemplos:
- O professor e o aluno chegaram cedo.
- Maria e José foram aprovados.
- O gato e o cachorro brigaram.
Sujeito Composto Posposto
Quando o sujeito composto vem depois do verbo, há duas possibilidades:
a) Verbo no plural (concordância total):
- Chegaram o professor e o aluno.
- Foram aprovados Maria e José.
b) Verbo concordando com o núcleo mais próximo (concordância atrativa):
- Chegou o professor e o aluno.
- Foi aprovada Maria e José.
Embora ambas sejam corretas, a concordância no plural é mais formal e preferível em textos oficiais e documentos jurídicos.
Núcleos Unidos por “OU”
a) Ideias excludentes: verbo no singular.
- João ou Pedro será eleito presidente. (apenas um)
- O réu ou o advogado falará primeiro. (um ou outro)
b) Ideias não excludentes: verbo no plural.
- A dedicação ou o esforço contribuem para o sucesso. (ambos contribuem)
- O calor ou o frio excessivos prejudicam a saúde.
Núcleos Sinônimos ou Quase Sinônimos
Quando os núcleos são sinônimos ou palavras de sentido aproximado, o verbo pode ficar no singular.
Exemplos:
- A angústia e a ansiedade me perturbava / perturbavam.
- O desalento e o desânimo tomou / tomaram conta dele.
Núcleos em Gradação
Quando os núcleos formam uma sequência gradativa, o verbo pode concordar com o último elemento (geralmente o mais forte) ou ir para o plural.
Exemplos:
- Uma palavra, um gesto, um olhar bastava / bastavam.
- Um mês, um ano, uma década se passou / se passaram.
Núcleos Resumidos por Pronome
Quando o sujeito composto é resumido por um pronome indefinido (tudo, nada, ninguém, etc.), o verbo concorda com o pronome resumitivo.
Exemplos:
- Professores, alunos, funcionários, ninguém sabia da mudança.
- Amor, carinho, atenção, tudo era importante.
- Dinheiro, poder, fama, nada o satisfazia.
Concordância com a Partícula SE
A partícula “SE” pode ter diferentes funções sintáticas, e cada uma implica uma concordância específica.
Pronome Apassivador (Voz Passiva Sintética)
Ocorre com verbos transitivos diretos (VTD) ou transitivos diretos e indiretos (VTDI). O verbo concorda com o sujeito paciente.
Como identificar: É possível transformar em voz passiva analítica (com ser + particípio).
Exemplos:
- Vendem-se apartamentos. (= Apartamentos são vendidos)
- Alugam-se casas. (= Casas são alugadas)
- Consertam-se relógios. (= Relógios são consertados)
- Discutiram-se as propostas. (= As propostas foram discutidas)
Índice de Indeterminação do Sujeito
Ocorre com verbos intransitivos (VI), transitivos indiretos (VTI) ou de ligação (VL). O verbo permanece sempre na 3ª pessoa do singular.
Como identificar: NÃO é possível transformar em voz passiva analítica.
Exemplos:
- Precisa-se de funcionários. (VTI – não concorda com “funcionários”)
- Trabalha-se muito aqui. (VI)
- Acredita-se em dias melhores. (VTI)
- É-se mais feliz na juventude. (VL)
- Confia-se em você. (VTI)
⚠️ ERRO GRAVÍSSIMO: “Precisam-se de funcionários” está ERRADO. O verbo “precisar” é transitivo indireto (quem precisa, precisa DE algo), portanto o SE é índice de indeterminação e o verbo fica no singular.
REGRA DE OURO: Se o verbo exige preposição antes do complemento, o SE é índice de indeterminação e o verbo fica no singular. Se não exige preposição, o SE é pronome apassivador e o verbo concorda com o sujeito.
Outros Casos Especiais
Pronomes de Tratamento
Os pronomes de tratamento sempre exigem o verbo na 3ª pessoa, mesmo que se refiram à 2ª pessoa (você, o interlocutor).
Exemplos:
- Vossa Excelência está convidado. (não: estás)
- Vossas Senhorias compareceram à sessão.
- Vossa Majestade foi generoso.
Expressões “Qual de nós”, “Algum de vós”, etc.
a) Pronome interrogativo/indefinido no singular: verbo na 3ª pessoa do singular.
- Qual de nós será aprovado?
- Algum de vós entendeu a explicação?
b) Pronome no plural: verbo pode concordar com o pronome (3ª pessoa plural) ou com “nós”/”vós”.
- Quais de nós serão / seremos aprovados?
- Alguns de vós entenderam / entendestes a explicação?
Sujeito Oracional
Quando o sujeito é uma oração, o verbo fica na 3ª pessoa do singular.
Exemplos:
- É necessário que todos compareçam.
- Convém que se faça revisão.
- Parece que vai chover.
Concordância Nominal
Regra Geral
A concordância nominal estabelece que os artigos, adjetivos, pronomes adjetivos e numerais devem concordar em gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural) com o substantivo a que se referem.
Exemplos:
- O professor dedicado ensina. (masculino singular)
- A professora dedicada ensina. (feminino singular)
- Os professores dedicados ensinam. (masculino plural)
- As professoras dedicadas ensinam. (feminino plural)
Adjetivo Relacionado a Mais de Um Substantivo
Adjetivo Posposto (depois dos substantivos)
a) Concordância com o mais próximo (concordância atrativa):
- Comprei uma blusa e um vestido vermelho.
- Estudei história e geografia brasileira.
b) Concordância com todos (masculino plural quando há substantivos de gêneros diferentes):
- Comprei uma blusa e um vestido vermelhos.
- Estudei história e geografia brasileiras.
- Encontrei pai e mãe preocupados. (masculino prevalece)
Ambas as formas são corretas, mas quando o adjetivo qualifica todos os substantivos, é preferível usar o plural.
Adjetivo Anteposto (antes dos substantivos)
O adjetivo concorda com o substantivo mais próximo.
Exemplos:
- Velhos casacos e blusas.
- Velhas blusas e casacos.
- Belos jardim e casa.
- Bela casa e jardim.
Casos Especiais de Concordância Nominal
Anexo, Incluso, Obrigado, Mesmo, Próprio, Quite
Estas palavras são adjetivos e concordam com o substantivo a que se referem.
Exemplos:
ANEXO / INCLUSO:
- Os documentos vão anexos.
- As fotos vão anexas.
- Seguem inclusas as certidões.
- A procuração segue anexa.
❌ ERRO: “Segue anexo as certidões.” (INCORRETO) ✓ CORRETO: Seguem anexas as certidões.
⚠️ ATENÇÃO: A expressão “EM ANEXO” é invariável: “Seguem em anexo as certidões.”
OBRIGADO:
- Muito obrigado! (homem falando)
- Muito obrigada! (mulher falando)
- Obrigados, disseram os rapazes.
- Obrigadas, disseram as moças.
MESMO / PRÓPRIO:
- Ela mesma fez o trabalho.
- Eles mesmos confirmaram.
- Eu próprio resolvi o problema.
- Nós próprias assumimos a responsabilidade.
QUITE:
- Estou quite com a Justiça. (eu, homem/mulher)
- Estamos quites com a Justiça.
- Ela está quite com as obrigações.
É proibido, É necessário, É bom, É preciso, É permitido
Estas expressões ficam invariáveis quando o substantivo não vem determinado por artigo ou pronome. Se vier determinado, a concordância é obrigatória.
Substantivo SEM artigo (ou determinante): expressão invariável.
- É proibido entrada. (sem artigo)
- É necessário paciência.
- É bom cerveja gelada.
- É permitido presença de acompanhante.
Substantivo COM artigo (ou determinante): expressão variável.
- É proibida a entrada. (com artigo)
- É necessária a paciência.
- É boa a cerveja gelada.
- É permitida a presença de acompanhante.
- Essa entrada é proibida.
⚠️ REGRA PRÁTICA: Se o substantivo vier com artigo (a, o, as, os) ou pronome (essa, esta, minha, sua, etc.), a expressão concorda. Se o substantivo vier “solto”, sem determinante, a expressão fica invariável.
Meio / Meia
a) MEIO como advérbio (= um pouco, mais ou menos): invariável.
- Ela está meio cansada. (= um pouco cansada)
- Eles ficaram meio nervosos.
- A porta estava meio aberta.
b) MEIO como numeral (= metade): variável.
- Comprei meia dúzia de ovos.
- São meio-dia e meia (hora).
- Tomei meia garrafa de água.
Bastante
a) Como advérbio (= muito): invariável.
- Eles estudaram bastante. (= muito)
- As questões eram bastante difíceis. (= muito difíceis)
b) Como pronome indefinido/adjetivo (= muitos, suficientes): variável.
- Havia bastantes candidatos. (= muitos candidatos)
- Tenho bastantes motivos para reclamar.
Só / Sós
a) SÓ como advérbio (= somente, apenas): invariável.
- Só estudo português. (= somente)
- Eles estudam só à noite. (= apenas)
b) SÓ como adjetivo (= sozinho): variável.
- Ela está só. (= sozinha)
- Eles estão sós. (= sozinhos)
- As meninas ficaram sós.
c) A SÓS: sempre invariável (locução adverbial).
- Eles conversaram a sós.
Menos / Alerta
São sempre invariáveis.
MENOS:
- Havia menos pessoas ontem.
- Elas são menos dedicadas.
- Trouxe menos documentos.
ALERTA:
- Os soldados estão alerta. (não: alertas)
- Fiquem alerta.
⚠️ OBSERVAÇÃO: Embora “alertas” seja aceito por alguns gramáticos modernos, em concursos públicos é mais seguro usar “alerta” como invariável.
Pseudo, Todo, Tal, Qual
Concordam com o substantivo.
Exemplos:
- Pseudo-sábios. / Pseudo-sábia.
- Todo homem. / Toda mulher. / Todos os alunos.
- Tal pai, tal filho. / Tais pais, tais filhos.
- Qual deles? / Quais delas?
Leso
Concorda com o substantivo que o acompanha (usado em “leso-algo” = prejudicado em algo).
Exemplos:
- Crime de lesa-pátria. (feminino)
- Crime de leso-patriotismo. (masculino)
Concordância com Números e Valores
Horas, Distâncias, Pesos, Medidas
O verbo SER concorda com o predicativo (numeral).
Exemplos:
- É uma hora. / São duas horas.
- É meio-dia. / São meio-dia e meia.
- Daqui até lá é um quilômetro. / São dois quilômetros.
- É pouco. / São poucos.
- É muito. / São muitos.
- Cem reais é pouco. / Cem reais são suficientes.
Dias, Datas
a) Sem artigo: verbo no singular.
- Hoje é (dia) 15 de novembro.
- Hoje é dia 10.
b) Com artigo no plural: verbo no plural.
- Hoje são 15 de novembro.
Estratégias para Concursos Públicos
Checklist de Análise
Ao resolver questões de concordância, siga estes passos:
- Identifique o sujeito: Onde está o núcleo do sujeito?
- Verifique se há sujeito: O verbo é impessoal?
- Analise a estrutura: Sujeito simples, composto, oracional?
- Observe a posição: Sujeito antes ou depois do verbo?
- Identifique casos especiais: Coletivos, partitivos, pronomes, etc.
- Para concordância nominal: Qual palavra (substantivo) está sendo modificada?
Erros Mais Comuns em Provas
- “Fazem dois anos” → ERRO (correto: Faz dois anos)
- “Houveram problemas” → ERRO (correto: Houve problemas)
- “Haverão mudanças” → ERRO (correto: Haverá mudanças)
- “Devem haver soluções” → ERRO (correto: Deve haver soluções)
- “Precisam-se de funcionários” → ERRO (correto: Precisa-se de funcionários)
- “Segue anexo as certidões” → ERRO (correto: Seguem anexas as certidões)
- “É proibida entrada” → ERRO (correto: É proibido entrada OU É proibida a entrada)
- “Ela está meia nervosa” → ERRO (correto: Ela está meio nervosa)
- “Alugam-se casa” → ERRO (correto: Aluga-se casa OU Alugam-se casas)
Dicas Finais
✓ DICA 1: Quando houver dúvida sobre a concordância verbal, localize o sujeito sublinhando-o. Isole os termos intercalados entre parênteses mentalmente.
✓ DICA 2: Para identificar se o SE é pronome apassivador ou índice de indeterminação, tente converter para a voz passiva analítica. Se for possível, é pronome apassivador (e o verbo concorda). Se não for possível, é índice de indeterminação (e o verbo fica no singular).
✓ DICA 3: Com expressões “é proibido”, “é necessário”, etc., procure o artigo. Tem artigo? Concorda. Não tem? Fica invariável.
✓ DICA 4: Para não errar com “anexo”, lembre-se: se é “anexo”, varia; se é “em anexo”, não varia.
✓ DICA 5: Verbos HAVER (= existir), FAZER (tempo) e fenômenos naturais (sentido literal) = sempre singular, sempre impessoal.
Exercício Recomendado
Para fixar o conteúdo, recomenda-se:
- Fazer pelo menos 100 questões de concursos anteriores sobre o tema
- Anotar todos os erros e revisar a regra correspondente
- Criar frases de exemplo para cada regra estudada
- Praticar a identificação do sujeito em textos complexos
- Revisar semanalmente os casos especiais até a automatização
Lembre-se: A concordância é um tema que exige prática constante. Quanto mais questões você resolver, mais rápido identificará os padrões cobrados pelas bancas examinadoras.
